Tres Borges...
A Trama
As migrações que o historiador, guiado pelas desafortunadas re
líquias da cerâmica e do bronze, trata de fixar no mapa e
que não compreenderam os povos que as executaram.
As divindades da aurora que não deixaram nem um ídolo nem um
símbolo.
O sulco do arado de Caín.
O orvalho na grama do Paraíso.
Os hexagramas que um imperador descobriu no casco
de uma das tartarugas sagradas.
As águas que não sabem que são o Ganges.
O peso de uma rosa de Persépolis.
O peso de uma rosa em Bengala.
Os rostos que puseram uma máscara que guarda uma vitrine.
O nome da espada de Hengist.
O último sonho de Shakespeare.
A pena que traçou a curiosa frase: He met the Nightmare
and her name he told.
O primeiro espelho, o primeiro hexâmetro.
As páginas que leu um homem cinzento e lhe revelaram que
podia ser Dom Quixote.
Um ocaso cujo vermelho perdura em um vaso de Creta.
Os brinquedos de um menino que se chamava Tibério Graco.
O anel de ouro de Polícrates que o Hado recusou.
Não há uma só dessas coisas perdidas que não projete
agora uma vasta sombra e que não determine o que fazes hoje
e o que farás amanhã.
Relíquias
O hemisfério austral. Sob sua álgebra
de estrelas ignoradas por Ulisses,
um homem busca e seguirá buscando
as relíquias daquela epifanía
que lhe foi dada, há tantos anos,
do outro lado de uma porta
numerada de hotel, junto ao perpétuo Tâmisa,
que flui como flui esse outro rio,
o tênue tempo elemental. A carne
esqueçe seus pesares e suas sortes.
O homem espera e sonha. Vagamente
recupera umas triviais circunstâncias.
Um nome de mulher, uma brancura,
um corpo já sem rosto, a penumbra
de uma tarde sem data, a garoa,
umas flores de cera sobre um mármore
e as paredes, cor de rosa pálido.
São os Rios
Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito, o Obscuro.
Somos a água, não o diamante bruto,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se vê no rio. Seu reflexo
muda na água do cambiante espelho,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. A sombra o cercou.
Tudo nos diz adeus, tudo se distancía.
A memória não cunha sua moeda.
E todavia há algo que se queda
E todavia há algo que se queixa.