Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket :: t r a d u c i e n d o ::







:: a u t o r ::

leonardo morais é "paulistano uísque paraguaio" criado desde quase sempre em "belourizonte" onde é proletário por obrigação e poeta de coração.

:: l i v r o ::

::c o n t a t o::

leodemorais@gmail.com

This page is powered by Blogger. Isn't yours?


Borges sigue:



A Jovem Noite


Já, as lustrais águas da noite me absolvem
das muitas cores e das muitas formas.
Já, no jardim, as aves e os astros exaltam
o regresso desejado das antigas normas
do sonho e da sombra. Já, a sombra selou
os espelhos que copiam a ficção das coisas.
Melhor disse Goethe:
o próximo se distancia.
Essas quatros palavras cifram todo o crepúsculo.
No jardim, as rosas deixam de ser rosas
e querem ser a Rosa.






A Tarde


As tardes que serão e as que terão sido
são uma só, inconcebivelmente.
São um claro cristal, só e doente,
inacessível ao tempo e a seu esquecimento.
São os espelhos dessa tarde eterna
que em um céu secreto se entesouram.
Naquele céu estão o peixe, a aurora,
a balança, a espada e a cisterna.
Um e cada arquétipo. Assim, Plotino
nos ensina em seus livros, que são nove;
bem que nossa vida breve poderia ser
um reflexo fugaz do divino.
A tarde elemental ronda a casa.
A de ontem, a de hoje, a que não passa.





Elegia


Teu é agora, Abramowicz, o singular sabor da morte,
a ninguém negado, que me será ofertado nesta
casa ou do outro lado do mar, às margens
de teu Ródano, que flui fatalmente como
se fosse esse outro e mais antigo Ródano, o Tempo.
Tua será também a certeza de que o tempo
se esquece de seus ontens e de
que nada é irreparável ou a certeza contrária
de que os dias nada podem apagar e de que não há um ato
ou um sonho, que não projete uma sombra infinita.
Genebra te cria um homem de leis, um
homem de ditames e de causas, mas em cada
palavra, em cada silêncio, eras um poeta.
Talvez estejas folheando neste momento os diversos
livros que não escreveste mas que prefixavas
e descartavas, e que para que nós te justificam e
de algum modo são. Durante a primeira
guerra, enquanto os homens se matavam, sonhamos
os dois sonhos que se chamavam Laforgue e Baudelaire.
Descobrimos as coisas que descobrem todos os jovens:
o ignorante amor, a ironía, o desejo de ser Raskolnikov
ou o príncipe Hamlet, as palavras e os poentes. As gerações
de Israel estavam em ti quando me disseste sorrindo:

Je suis trés fatigué. J´ai quatre mille ans.
Isto ocorreu na Terra, em vão é conjecturar a idade
que terás no céu.
Não sei se, todavia, és alguém, não sei se estás
a me ouvir.




Buenos Aires, quatorze de janeiro de 1984